O ENCONTRO NO RELACIONAMENTO


Nós não existe, mas é composto de Eu e Você. É uma fronteira sempre móvel, onde duas pessoas se encontram. E, quando há encontro, então eu me transformo e você também se transforma.”
( Frederic Perls)

O que é relacionamento? Relacionamento é a relação estabelecida entre duas pessoas, entre uma pessoa e um grupo, entre uma pessoa e ela mesma, entre uma pessoa e Deus ou a vida. A relação interna de uma pessoa consigo mesma é um relacionamento — particular, sem dúvida, mas um relacionamento —, que na maioria das vezes pode ser bem complicado, pois não é muito fácil encontrar alguém totalmente de bem consigo mesmo e que não apresente defesas na sua relação interna ou com outras pessoas. Afinal, todos nós nascemos num lar, em que recebemos as impressões de outras pessoas, as quais não são necessariamente superequilibradas. A família não é equilibrada; ela pretende sê-lo; porém, pretender e ser de fato são coisas bem diferentes.

Isto é paradoxal, não é mesmo? É comum o conceito difundido de que família é o centro do equilíbrio, o que, na prática, sabemos não ser verdade. A família tenta ser equilibrada; ela te cobra ser equilibrada. Mas como transmitir um equilíbrio que as pessoas da família não têm?

O famoso psiquiatra José Ângelo Gaiarsa diz que “a família é basicamente neurótica e, como tal, o centro das neuroses”. Isso tem muita lógica, porque é na família que recebemos uma formação moral, com valores, ideias e conceitos sobre a vida. Aliás, o caminho da maturidade está justamente em questionar os valores que recebemos, respeitando, é claro, os valores recebidos de nossos pais, verificando se isso tem alguma validade para nós. Como sempre digo, são nossos pais que nos transmitem tais valores e fazem o que podem por nós, dando o melhor de si. Apesar disso, porém, precisamos fazer esse questionamento. Afinal, eles, pais, são seres humanos, e seres humanos têm fraquezas de caráter e podem não ser necessariamente, equilibrados.

Acredito que estamos nesta vida — e de vida para vida — evoluindo, caminhando para alcançar o equilíbrio. E atingir o verdadeiro equilíbrio significa descobrir nossa essência real. Assim, precisamos perceber que os conceitos recebidos de nossa família, da sociedade como um todo e eventualmente de algumas religiões deixam a desejar, porque pregam valores tradicionais da egopersonalidade que não tem muito a ver com os valores essenciais da alma ou de nossa natureza real. Na maioria das vezes, recebemos conceitos pautados em ideias controladoras ou imposições sobre como sermos corretos ou adequados, não sendo levado em conta o jeito de ser e o ritmo de cada um. Fomos levados a agir de forma massificada, defendendo a imagem do que deveríamos ser ou ter, sem o menor respeito à individualidade. Na maioria das vezes, não fomos treinados para identificar nossos reais sentimentos; pelo contrário, fomos bombardeados com ideias transmitidas sobre como deveríamos pensar e ser, sempre visando a algo externo, pontos de referências que não eram os nossos, mas sim os de um modelo social tradicional impondo modelos de adequação, os quais tiveram início em algum momento da história e se propagam até hoje. Não estou culpando ninguém; aliás, na Gestalt-Terapia e na metafísica nunca se culpa ninguém por nada. Ninguém é exatamente culpado, pois os comportamentos são aprendidos e transmitidos de geração em geração. Nossos pais fizeram o que aprenderam com as famílias deles, que, por sua vez, também receberam os modelos de alguém, e assim por diante, e isso foi o melhor que todos puderam transmitir. O que precisamos rever é justamente o comportamento de repetir um modelo educacional, que sentimos ter sido ruim. E por que o repetimos? Porque é o único modelo que conhecemos. Quantas pessoas afirmam: “Quando tiver meus filhos, não vou fazer com eles o que meus pais fizeram comigo, como, por exemplo, espancá-los.” De forma lamentável, quando menos se percebe, lá está a pessoa agindo exatamente da maneira que mais repudiou, o que é muito comum.

O que precisamos desenvolver é o bom-senso para entender o que foi recebido por nós, os conceitos que nos foram transmitidos, o que isto causou em nós; para resgatarmos a coragem de agir diferente e mudar.

Como afirmei no livro É Tempo de Mudança, o que propiciará essa atitude de enfrentamento será justamente o ponto de saturação, pois apenas quando muito saturadas e infelizes é que as pessoas estarão em condições de fazer algo diferente do que têm feito, para mudar e criar a possibilidade de serem felizes apenas por serem o que são de verdade, o que significa fugir do controle a que fomos submetidos pela nossa formação.

Claro que sempre existiram pessoas que tentaram contestar alguns valores e crenças, mas lamentavelmente quase foram — ou foram mesmo — linchadas. Tudo levava a crer que não se podia fazer nada de contestatório, havendo necessidade de certo conformismo. Até Sigmund Freud, o criador da psicanálise, considerava que “todas as pessoas são neuróticas, e o máximo que conseguem durante suas vidas é entender a neurose e aceitá-la como um fato”. A cura total da neurose era considerada difícil e quase impossível de ser atingida. Ainda bem que os tempos mudam e estamos evoluindo!

Felizmente as linhas mais existencialistas da psicologia já veem o homem com um potencial de força interna, algo perfeito que está lá dentro, sendo que o processo de psicoterapia ajuda na percepção e no resgate desses potenciais essenciais. Alma, essência, self, eu interno e natureza verdadeira são, na realidade, sinônimos que mostram a existência de algo lá no fundo, a parte mais real da pessoa, que precisa entender sua criação, as crenças introjetadas por ela, enfim, compreender o ego — ou a capa que se encontra ao redor da parte mais verdadeira —, resgatando, por meio dessa compreensão, seu verdadeiro eu. Carl Gustav Jung chamava esse processo de individuação, ou seja, o caminho para resgatar o indivíduo verdadeiro dentro de cada um.

De acordo com a física quântica e a metafísica, nós somos uma centelha de Deus. Tudo está interligado; na realidade, não existe espaço no Universo; tudo está devidamente preenchido por algo, que podemos chamar de Deus. Acredito que Deus não está dentro de nós, mas nós estamos dentro Dele. Como escreveu Joseph Murphy: “Nele existo, me movo e tenho meu ser”.

A própria ciência já está constatando que setenta por cento do Universo é composto por algo que os cientistas chamam de nada, e que esse nada tem uma massa considerável. Ou seja, é um nada que existe porque está lá, ocupa um espaço e tem um peso. Não é incrível? Os cientistas ainda chegarão lá! Só falta considerar que esse nada representa Deus, uma vez que o todo está em tudo. O nada é o tão, o grande vazio, e o tao é Deus, como disse Lao-Tsé.

Assim, voltando ao nosso tema, acredito que somos muito maiores do que pensamos ou temos consciência, e estamos aqui para perceber e resgatar isso; logo, não podemos afirmar que a família seja equilibrada, com base no que o real equilíbrio significa de fato. Pelos conceitos taoistas,o equilíbrio está no aqui-e-agora, à medida que estamos totalmente centrados e percebendo se o que estamos fazendo tem a ver com o que estamos sentindo dentro do que a realidade do aqui-e-agora exige.

No livro Em Busca da Cura Emocional, discorri sobre o que chamo de modelo psicoemocional ideal, cujo significado é a capacidade de atender a uma necessidade que temos por meio de uma ação apropriada que atenda a essa necessidade com prazer e conforto, ou seja, com bom senso, que é o uso da capacidade de sentir, não de pensar. Isso é equilíbrio!

Assim, devemos entender que as famílias são compostas por pessoas que também estão caminhando para um equilíbrio e, desse modo, não podemos cobrar delas que nos ensinem o equilíbrio total. Aliás, sinto que, na realidade, os filhos estão ensinando mais aos pais do que o contrário. Espiritualmente falando, é um fato que tudo está certo e nada é por acaso; cada um tem os pais de que precisa, e estes, o filho de que necessitam. Cada um é instrumento do outro. Você não tem controle sobre seus pais aproveitarem ou não o instrumento que você, filho, é para eles aprenderem, mas com certeza é responsável por saber que eles são os instrumentos para você aprender. Por isso, é sempre muito produtivo refletir sobre para que serve ter pais como os seus ou a família que você tem. O que você precisa aprender com eles? O que você pode ensinar a eles? Embora a família, a sociedade e algumas religiões nos passem valores e crenças sobre nós mesmos que mais nos prejudicam do que nos ajudam, lembre-se de que você não é vítima; ninguém é vítima! Tudo serve para evoluirmos e aprendermos, mesmo porque, como já disse, nada acontece por acaso.

Dentro dessa aprendizagem e evolução, devemos perceber que somos muito maiores do que pensamos ou aprendemos sobre nós mesmos. No livro É Tempo de Mudança, falei muito sobre isso, enfocando principalmente o fato de que, para acompanhar as mudanças em nossa vida, precisamos perceber essa grande verdade. Assim, no que se refere ao tema 'relacionamentos', a grande dica para um bom relacionamento, seja consigo mesmo ou com o outro, começa com o autoconhecimento, isto é, por meio da tomada de consciência do que você pensa que é versus o que você é de fato.

Talvez seja necessário enumerar aqui alguns conceitos espirituais — que você já deve saber, mas não custa nada lembrar! — sobre nosso propósito de vida. De vida para vida, vamos assumindo uma coisa chamada carma (Lei de Causa e Efeito), segundo a qual você terá de prestar contas de tudo o que fez. Exemplo: vamos supor que, em algum momento de outra vida, você tenha cometido um ato contra alguém, prejudicando-o em demasia; nesta, você tem a oportunidade de encontrar de novo a pessoa, a fim de harmonizar esse acontecimento.

Devemos entender que nosso espírito tem em si a consciência de Deus, que são as leis divinas. Assim, a própria consciência o atormentará até que você harmonize as coisas que fez. São oportunidades de crescimento, de amadurecimento e de evolução, e todos nós sofremos a ação dessa lei. O que você envia, recebe; o que planta, colhe — é um fato! Basta observarmos isso na realidade prática. Se, por exemplo, você plantar sementes de laranja, colherá laranjas, certo? Você não vai achar que colherá mangas, não é verdade? Ora, se essa lei física funciona assim, então na parte espiritual, emocional e mental o mesmo acontece. “O que é em cima é embaixo”, já dizia Hermes Trimegisto, e isso é verdade.

Há milênios, os taoístas, por intermédio da observação da natureza, também chegaram a essa conclusão. Pare e medite sobre isso, observe suas ações, mesmo no aqui-e-agora, e você poderá perceber quanto de verdade existe nesses enunciados. Observe sua vida e tente sentir o que você precisa aprender ou resgatar no meio em que está vivendo. Observe o que você está atraindo para si. Isso lhe dará um toque sobre sua forma de pensar, sobre seu comportamento interno.

Então, para começar, precisamos entender que nem sempre estamos rodeados por espíritos amigos, principalmente no núcleo familiar. Quem garante que sua mãe ou seu pai, com quem você tem a maior dificuldade de relacionamento, não são inimigos espirituais? Quem garante que você não foi inimigo deles e, enfim, estão aqui hoje com o propósito de se entenderem?

Certa vez, perguntei ao mestre Sham (mentor que direciona as atividades da Fraternidade Shamshara) qual a melhor maneira de trabalhar o carma com alguém, e ele respondeu: “A melhor maneira de trabalhar um carma seu com uma determinada pessoa é você procurar aceitá-la como ela é, respeitando-a por isso, sem tentar modificá-la, não se importando nem se deixando atingir pelo fato de ela ser como é. O dia em que isso acontecer, seu carma com ela estará finalizado”.

Achei isso fantástico! E é um fato, pelo que tenho percebido e estudado. Assim, precisamos entender que ninguém é vítima. Tudo bem que esquecemos o que fizemos ou o que nos fizeram em outras existências, o que é muito sábio por parte da vida, pois, se já é difícil resolver ressentimentos desta vida, imagine se lembrássemos de tudo de outras épocas. Seria um verdadeiro inferno! Porém, é muito interessante você se perguntar diante de uma situação complicada: “O que tenho de aprender ou resgatar com isso, com essa pessoa e com esses fatos?” Posso garantir que, no dia em que entender o que tem de aprender, você terá, sem dúvida, vencido essa questão e evoluído com esse fato.

É preciso entender que, se você está passando por uma situação, sua alma sabe que você tem capacidade para lidar com ela, pois do contrário não estaria aqui. Não somos vítimas. Somos nós que escolhemos o tipo de vida que teremos, a família ou núcleo que nos receberá, o que precisamos trabalhar na vida atual, etc, e é quando estamos no astral que fazemos essa escolha, pois estamos sendo amparados pelos espíritos e temos maior lucidez e consciência sobre nosso próximo propósito de vida. Assumir tudo isso já é um início de trabalho, o qual vai lhe dar coragem para começar a se conhecer e assumir cem por cento de responsabilidade por si mesmo, bem como diminuir seu sofrimento e revolta, o que implica não se sentir vítima, em hipótese alguma.

Com certeza, a primeira atitude em direção ao nosso autoconhecimento é aceitar, cem por cento, a responsabilidade por nossa vida e pelo nosso comportamento. É claro que a formação que tivemos foi importante no que se refere aos conceitos que introjetamos. Fomos crianças vulneráveis e estivemos na mão de nossa família e da sociedade, que nos incutiram várias ideias, valores e maneiras de ser, e tudo isso faz parte das crenças que adquirimos sobre nós mesmos, inclusive a ilusão de dependência, sobre a qual falarei em capítulo à parte.

Acreditamos que éramos dependentes, e isso foi real, em nossa infância, durante certo tempo. Porém, hoje, somos adultos, e por isso mesmo temos de perceber que não somos dependentes de nada ou de ninguém, em nível real, e também precisamos nos dar o direito de questionar as ideias e os valores recebidos, para fazer valer o direito de sermos o que somos — indivíduos únicos, de fato.

À medida que assumimos a responsabilidade pela maneira como nos sentimos, podemos resgatar nosso grande poder de fazer opções. Temos nosso livre-arbítrio, mas às vezes nos esquecemos de usá-lo, justamente porque nos sentimos vítimas de situações e de pessoas. E não é bem assim, porque não são as circunstâncias ou as condições que formam o problema, mas nossa reação a elas.

Enquanto culparmos alguém ou alguma coisa pelo que quer que tenha acontecido ou esteja acontecendo, enquanto culparmos alguém pela maneira como nos sentimos, estaremos nos vitimizando, nos acovardando, não querendo assumir responsabilidades por nós mesmos e muito menos querendo encontrar soluções para nossos problemas. Culpar alguém pelos seus problemas é criar obstáculos ao seu próprio crescimento, e essa é a essência da dependência emocional. Você acha que a culpa é do outro, então depende dele e só vai melhorar quando ele mudar. E se ele não quiser mudar? E se não quiser entender o seu problema? É um fato que você não tem controle sobre o outro, então o que fará? Vai ficar chorando, esperando que ele faça algo, que o reconheça ou mude? Terrível essa situação, não? Por incrível que pareça, tal situação de espera gera uma grande ansiedade e cria um terrível mal-estar. E, para variar, esse mal-estar só está querendo informá-lo de que você está se sentindo assim por conta de sua linha de pensamentos, da postura que está tendo e das opções que está deixando de considerar.

• Lembre-se •

O que você sente está relacionado com o que pensa. Veja, isso é uma lei. Fique atento para esse fato!

E o que a pessoa tem de fazer para sair dessa neurose? Aceitar o outro como ele é, perguntar-se o que, afinal, quer e pode fazer, de acordo com sua própria vontade e possibilidades, assumindo realmente a responsabilidade pelo seu próprio bem-estar, o que não é obrigação do outro, mas da própria pessoa.

Às vezes, passamos mais tempo culpando alguém do que fazendo o que precisa ser feito. Veja que culpar os outros é caminhar para trás; pelo contrário, quando assume a responsabilidade por si mesmo, você avança e se torna mais forte. Sua autorresponsabilidade torna-o mais forte, na proporção direta à eliminação de suas emoções negativas e vitimistas.

Cada vez que surgir uma emoção negativa ou vitimista, afaste-a dizendo: “Sou responsável pelo que sinto”, “Sou responsável pelas minhas opções”. No momento exato em que parar de dar desculpas para si mesmo, você estará de posse de suas habilidades reais para fazer algo por si próprio, estará mais consciente do seu poder de escolha e de se dar alternativas.

É interessante perceber que responsabilidade e coragem andam lado a lado. Se você teme alguma coisa, ouse dirigir-se para a situação que está motivando o temor. Apenas fazendo o que precisa ser feito é que a coragem de que precisamos vai se desenvolver. E a coragem surge quando se vivência a coisa que nos preocupa. Ela não é a ausência do medo, mas sim a sabedoria de agir apesar dele. Lembre-se de que ter coragem é fazer o que se receia, e não haverá coragem a menos que se tenha medo. Perceber o medo e aceitá-lo sem deixar-se paralisar, tendo a ousadia de enfrentá-lo, é ser SENHOR de si mesmo, é estar de posse do seu poder.

O desejo de fazer, de assumir que, se não fizermos o que precisa ser feito, ninguém o fará por nós, cria a coragem para seguirmos adiante, e precisamos começar a fazer, pois isso criará a capacidade que aumentará a confiança e a própria coragem.

É por isso que reafirmo que o encontro verdadeiro com o outro começa com o encontro consigo mesmo, a partir da ideia de responsabilidade cem por cento por si próprio. Pelo outro, você não tem responsabilidade nenhuma, pois cada um é responsável por si. Dentro de um relacionamento, seja lá de que ordem for, você tem cinquenta por cento de responsabilidade, porque sua parte só poderá ser feita por você, e a parte do outro, apenas por ele mesmo.

Relacionamento envolve duas pessoas, e para que ele seja bom cada um necessita fazer sua parte, precisa haver troca, pois, do contrário, não há encontro, não há relacionamento verdadeiro. Aliás, um relacionamento esgota quando não existe troca. Ele não pode ser unilateral, em que apenas um dá e nunca recebe. Isso não existe na natureza, onde em tudo existem trocas. Por exemplo: digamos que você plante uma semente num vaso. Para que ela germine, floresça e se desenvolva, você precisa cuidar dela, colocando água no recipiente, pondo, eventualmente, nutrientes etc. Experimente nunca colocar água no vaso. Será que a semente vai nascer e se desenvolver? Não, é claro! O mesmo acontece com o relacionamento: ele precisa de trocas, de feedbacks, de diálogo, de compreensão, de presença, senão não existe um relacionamento, mesmo que seja de você para si mesmo, onde a lei é a mesma.

Na Gestalt-Terapia, temos a oração da Gestalt, que você lerá a seguir. Essa oração elucida os conceitos de responsabilidade, de não expectativa. Aliás, a expectativa existe quando há sacrifício numa relação. A regrinha psicológica é:

Sacrifício gera expectativa, que gera cobrança, que gera briga.

Assim, se você quiser parar de brigar, reveja os sacrifícios que vem fazendo. Não adianta dizer que os faz sem esperar nada. Isso não é verdade, a não ser que o fazer seja o mais absolutamente espontâneo e reflita sua verdadeira vontade; caso contrário, haverá expectativa, sim, porque expectativa é defesa psicológica perante o ato de sacrificar-se.



ORAÇÃO DA GESTALT
Eu sou eu
e você é você.
Faço as minhas coisas
e você faz as suas.
Não estou neste mundo para atender as suas expectativas
e você não está aqui para atender às minhas.
Eu sou eu
e você é você.
E, se por acaso nos encontramos, é lindo.
Senão, não há nada a fazer.


A Gestalt-Terapia é uma linha de psicoterapia criada pelo alemão Frederic Perls (1895-1970) e tem dois princípios muito importantes: a necessidade de assumir responsabilidade e a consciência do aqui e agora. Já ouvi pessoas dizerem que a oração da Gestalt é fria. De fato, pode até parecer fria, porém é tão verdadeira!


Mas como saber se um relacionamento dará certo ou não? Não temos como saber, não existem garantias. Atendo pessoas que querem se casar para saber como é a vida de casado, e casados que querem se separar porque não aguentam a vida a dois. Porém, sinto que conseguir um bom relacionamento é o desejo de todos. Para fazermos uma boa tentativa, podemos começar a trabalhar em nós mesmos a autenticidade. O que não vale, ao final de um relacionamento, é ficar colocando a culpa no outro. Afinal, considere: você atrai aquilo pelo que está vibrando, e tudo acontece para que você aprenda algo. Assim, por favor, não fique se lamentando; pondere, reflita em suas atitudes o que atraiu 'o abacaxi' para você e considere que, se aprendeu com o que vivenciou, você poderá mudar suas atitudes e aí, sim, atrair algo bem melhor. Não acha que vale a pena tentar?


Para que você se encontre de fato com alguém, é preciso encontrar-se primeiro consigo mesmo. Também, o encontro real acontece quando há espaço e liberdade para sermos nós mesmos. Apenas quando você se amar de verdade poderá amar o outro da mesma forma. Apenas quando você se der liberdade poderá dar liberdade ao outro. Apenas quando você confiar em si mesmo poderá confiar no outro.


Entenda confiar como respeito. Respeitar o outro não significa fazer o que ele quer, na hora que quer ou do jeito que quer. Não, isso é mimo! Respeitar o outro significa aceitá-lo como ele é. Apenas quando você se respeitar como é poderá respeitar o outro como ele é, e só por isso já vemos que não há encontro na maioria dos nossos relacionamentos. O encontro também impõe troca. É uma questão de dar e receber, de biofeedback.


Todo mundo sabe como é chata aquela pessoa carente, que fica o tempo todo querendo que o outro dê isso, faça aquilo, apenas para que ela se sinta a mais lindinha, a mais gracinha, a mais amada etc. Já ouvi absurdos do tipo: “Ele me dá muita liberdade; acho que no fundo não me ama”. A maioria das pessoas acha que um relacionamento impõe simbiose, ou seja, que duas pessoas sejam iguais, façam tudo junto, do mesmo jeito, gostem das mesmas coisas. Gente, isso é absurdo! Já que não existem duas pessoas iguais, como se pode querer que exista afinidade tão grande? Isso é neurose!


O que atrapalha um encontro? O que atrapalha um relacionamento? Dependência emocional, insegurança, carência emocional, ciúme, excesso de timidez, dificuldade de expressão, jogos de expectativa e cobranças, jogos de poder — tudo isso atrapalha um bom relacionamento, seja ele qual for: entre amigos, cônjuges, namorados, irmãos, amigos dentro de um time, de uma empresa, na religião. Afinal, onde quer que você vá, você se leva junto, não é mesmo? Você se leva e também leva suas neuroses como consequência de sua insegurança, de falta de confiança e de autoconhecimento.


Fonte: Livro “A Essência do Encontro” de Lourdes Possatto

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Eleonôra